Não devemos nos enganar. O escândalo, o barulho do ENEM não é à toa.
Dizer que as questões são "tendenciosas" faz parte do mesmo pensamento que leva ao ataque contra os professores impetrados na lógica de que professores praticam "assédio ideológico" aos estudantes. Nessa lógica, conhecer autores, a pluralidade do pensamento e, pasmem, até os Direitos Humanos, torna-se um ato de "ideologização.
Não é por menos que o ataque se dá aos conteúdos ligados à sexualidade, à Cidadania e história de matriz africana, todos TEMAS TRANSVERSAIS e que fazem parte do currículo da Educação Básica no Brasil.
Temas que, diga-se de passagem, são abordados muito menos do que se deveria e com muito menos espaço no currículo e na escola do que o necessário para uma reflexão real e plural.
O "escândalo" feito, nada tem a ver com a postura crítica ao exame, perceba-se, ninguém nem mesmo CONTESTA a validade do exame, mas os conteúdos. Trata-se de uma busca por controlar o currículo e, consequentemente, aquilo que pode ser "dito ou não". Ao colocar como "questões de esquerda" não é uma polêmica que busca apenas deslegitimar à garantia de direitos e questões que abrangem pautas que se estendem por todo o espectro da política social com orientação para igualdade entre os seres humanos. Trata-se de criar o "monstro ideológico" que justifique a aprovação da lei ditatorial que se apresenta nos corredores do Congresso e que pode, na prática, encerrar o ensino de todas as Ciências Sociais na Escola (e até ameaçar teorias da Física e da Biologia, como Big Bang e Evolução).
Não há que se negar, toda educação e todo conteúdo É político e as questões colocadas no ENEM são conteúdos que, são sim, políticos, mas que orientam-se pelo princípio da IGUALDADE SOCIAL e pela leitura de fatos sociais. O primeiro princípio, se negado, não há porque manter-se a sociedade existente e, de fato, morre o sentido da escola. O segundo pressupõe a possibilidade de criação do novo que só se dá a partir do conhecimento do passado para que, seja pela contestação ou reforço, construa-se as possibilidades do novo.
A prova do ENEM está ganhando uma repercussão pelo que foi nela colocado sem contestação ao seu sentido "avaliativo". E essa repercussão, ainda que pareça movida por uma "raivinha", não tem nada de ingênua. E as consequências, podem ser nocivas para toda a sociedade.