Hoje
vou fazer um texto mais curto, pois é um tema que me aflige mais do
que me causa reflexão, não sei exatamente ainda como lidar e me
considero falho, talvez, seja exatamente por isso que estou falando.
Trata-se do afeto na relação professor-estudante.
Já
faz muitos anos que se fala que a educação é importante ferramenta
social que a relação entre professor e estudante é extremamente
importante no processo de ensino-aprendizagem, porém, em uma
sociedade com tanta dificuldade em se relacionar com o outro, a
escola também sofre com isso.
O
contato com o outro é feito recheado em medo, afastamento e pensando
em se proteger muito mais que se relacionar, isso sem contar com a
distância e a pressa que se baseiam nossa vida, limitando o
espaço-tempo do contato com o outro. Por tudo isso, a escola vai se
tornando um centro nevrálgico na vida de muitos jovens, lugar de
encontro e contato e, também, onde desenvolvem o afeto e se
relacionam, como nos lidamos com isso?
A
relação entre carinho e afeto na escola envolve necessariamente
pensar também a agressividade, uma contraparte que está relacionada
a relação que estabelece-se quando o afeto é pouco percebido. Como
lidamos com a agressividade estudantil? O quão agressivos somos com
os estudantes e o quão afetuosos somos?
É
fácil notar entre os estudantes que mais buscam o tapa e as
agressões traços que indicam socorro, a vontade de falar que muitas
vezes calamos ao afastá-los de nós e respondermos dura e secamente.
Estudantes que precisam e necessitam de um abraço, um afago e uma
palavra. Mas esse é nosso papel? Muitas vezes o estudante magoa,
fere e machuca, não só os estudantes, mas também o professor, como
transformar uma relação dessa em uma relação de cumplicidade?
Mais
uma vez, há coisas a alterarmos na nossa prática, o abraço, o
carinho e até mesmo a bronca (que não pode ser só gritos
enlouquecidos) devem ser práticas do professor tanto quanto o
conteúdo, a condução do processo de ensino-aprendizagem e a busca
por práticas transformadoras. Nisso batemos em muitos muros, seja na
doença social que teme qualquer contato físico, transformando-o em
ato libidinoso, seja pelo escasso tempo que se dispõe para trabalhar
com cada estudante e pelo número incrivelmente alto de estudantes
que os professores costumam trabalhar, sendo comum professores com
mais de 200 estudantes no segundo seguimento do Ensino Fundamental.
As
consequências são óbvias, os estudantes não possuem referência
nos professores, aqueles que vem para o sexto ano (na rede municipal
do Rio de Janeiro) sentem a falta de um professor que os conheça
mais profundamente, afinal, tinham um professor que os via
diariamente e agora tem professores que se revezam em algumas poucas
horas por semana. Assim, como desenvolver uma relação mais profunda
e de confiança? Como se não bastasse, esses professores trabalham
em diversas turmas, tendo pouca capacidade de individualizar a
atenção e perceber os detalhes e especificidade de cada estudante
e, sem um conhecer o outro, como desenvolver o afeto?
Confesso
que essa é uma dificuldade que ainda me debato todos os dias, o fato
de morar próximo aos estudantes me permite um contato diferenciado,
encontro-os nos fins de semana pela rua, na padaria e em pontos de
ônibus, que se reflete também em uma postura que normalmente é
amistosa e até bastante próxima dos estudantes, porém, lidar com o
estresse profissional e o desafio de lidar com estudantes plurais,
ativos e um espaço confinado que por vezes se transforma em “prisão”
envolve complicações no próprio trato. Nosso trabalho envolve um
contato que sempre exige de nossa empatia e vincula com a compreensão
dos dilemas particulares de cada estudante. Algo que se vincula
diretamente à atividades psicológicas e de assistência social,
muitas vezes inexistentes na escola e proximidades.
Nesse
cenário, sei que uma maior aproximação professor estudante depende
fundamentalmente de um maior tempo de convívio e, em muitos casos, a
presença de outros profissionais capazes de dar o suporte
psicológico e social que se precisa para desenvolver a prática
educacional.