terça-feira, 1 de setembro de 2015

Pequenas reflexões sobre educação e afeto

Hoje vou fazer um texto mais curto, pois é um tema que me aflige mais do que me causa reflexão, não sei exatamente ainda como lidar e me considero falho, talvez, seja exatamente por isso que estou falando. Trata-se do afeto na relação professor-estudante.

Já faz muitos anos que se fala que a educação é importante ferramenta social que a relação entre professor e estudante é extremamente importante no processo de ensino-aprendizagem, porém, em uma sociedade com tanta dificuldade em se relacionar com o outro, a escola também sofre com isso.

O contato com o outro é feito recheado em medo, afastamento e pensando em se proteger muito mais que se relacionar, isso sem contar com a distância e a pressa que se baseiam nossa vida, limitando o espaço-tempo do contato com o outro. Por tudo isso, a escola vai se tornando um centro nevrálgico na vida de muitos jovens, lugar de encontro e contato e, também, onde desenvolvem o afeto e se relacionam, como nos lidamos com isso?
A relação entre carinho e afeto na escola envolve necessariamente pensar também a agressividade, uma contraparte que está relacionada a relação que estabelece-se quando o afeto é pouco percebido. Como lidamos com a agressividade estudantil? O quão agressivos somos com os estudantes e o quão afetuosos somos?

É fácil notar entre os estudantes que mais buscam o tapa e as agressões traços que indicam socorro, a vontade de falar que muitas vezes calamos ao afastá-los de nós e respondermos dura e secamente. Estudantes que precisam e necessitam de um abraço, um afago e uma palavra. Mas esse é nosso papel? Muitas vezes o estudante magoa, fere e machuca, não só os estudantes, mas também o professor, como transformar uma relação dessa em uma relação de cumplicidade?

Mais uma vez, há coisas a alterarmos na nossa prática, o abraço, o carinho e até mesmo a bronca (que não pode ser só gritos enlouquecidos) devem ser práticas do professor tanto quanto o conteúdo, a condução do processo de ensino-aprendizagem e a busca por práticas transformadoras. Nisso batemos em muitos muros, seja na doença social que teme qualquer contato físico, transformando-o em ato libidinoso, seja pelo escasso tempo que se dispõe para trabalhar com cada estudante e pelo número incrivelmente alto de estudantes que os professores costumam trabalhar, sendo comum professores com mais de 200 estudantes no segundo seguimento do Ensino Fundamental.
As consequências são óbvias, os estudantes não possuem referência nos professores, aqueles que vem para o sexto ano (na rede municipal do Rio de Janeiro) sentem a falta de um professor que os conheça mais profundamente, afinal, tinham um professor que os via diariamente e agora tem professores que se revezam em algumas poucas horas por semana. Assim, como desenvolver uma relação mais profunda e de confiança? Como se não bastasse, esses professores trabalham em diversas turmas, tendo pouca capacidade de individualizar a atenção e perceber os detalhes e especificidade de cada estudante e, sem um conhecer o outro, como desenvolver o afeto?

Confesso que essa é uma dificuldade que ainda me debato todos os dias, o fato de morar próximo aos estudantes me permite um contato diferenciado, encontro-os nos fins de semana pela rua, na padaria e em pontos de ônibus, que se reflete também em uma postura que normalmente é amistosa e até bastante próxima dos estudantes, porém, lidar com o estresse profissional e o desafio de lidar com estudantes plurais, ativos e um espaço confinado que por vezes se transforma em “prisão” envolve complicações no próprio trato. Nosso trabalho envolve um contato que sempre exige de nossa empatia e vincula com a compreensão dos dilemas particulares de cada estudante. Algo que se vincula diretamente à atividades psicológicas e de assistência social, muitas vezes inexistentes na escola e proximidades.
Nesse cenário, sei que uma maior aproximação professor estudante depende fundamentalmente de um maior tempo de convívio e, em muitos casos, a presença de outros profissionais capazes de dar o suporte psicológico e social que se precisa para desenvolver a prática educacional.


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