quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sobre as nossas práticas e nossas reflexões



Hoje vou fazer uma crítica ao trabalho docente no Brasil, talvez algo que seja fruto de certo pensamento estabelecido de “sacerdócio” ou mesmo por acharmos tão corriqueiro que não dignamos a notar o que fazemos. Somos discretos demais.

Explico, cada dia de trabalho, cada conversa com colega, vejo surgirem, acontecerem e se realizarem diversas atividades e projetos dentro da escola. São ideias gestadas pelos profissionais e estudantes que logo se realizam e se concretizam em aulas, intervenções e trabalhos. Ideias que surgem ali e, muitas vezes, nem chegam ao conhecimento de ninguém. Tal cenário leva ao desconhecimento das atividades feitas dentro da escola e, em muitos casos, ao pensamento de que “nada mudou”.

Ainda que devido à estrutura da escola e da forma como funciona algumas coisas de fato se manterem, as transformações ocorridas dentro da escola são visíveis para quem está em seu cotidiano e talvez seja esse o problema, só estão visíveis para quem lá está. A escola, como grande parte das instituições hoje em dia, sofre de dificuldade em se fazer ouvir no contexto social e, assim, muito do que ocorre nela fica nela. Mas isso deve ser revertido.

Recentemente uma experiência de grande importância na minha trajetória acadêmica e profissional demonstrou o quanto a nossa prática e nossas experimentações práticas (afinal, não é de experimentação que se faz a ciência) produzem resultados admiráveis e potentes, capazes de gerar comoção e certo apreço na comunidade científica. A realidade é: O que fazemos, nossas práticas e nossas ações são produção de conhecimento novo, calcado em substancialidade e que pode trazer novamente o vigor acadêmico para a escola, aumentando o número de sujeitos em nossas lutas e quem sabe, fazendo a educação ser mais transformadora.

Hoje o texto é um convite, vamos escrever, fotografar, filmar. Mostrar ao mundo as coisas que apaixonam nossos estudantes, pois cotidianamente criamos e produzimos materiais apaixonantes que ficam restritos a nossas salas de aula ou nossas escolas, resultando em pouco impacto no pensamento sobre a educação e abrindo espaço para os discursos de que “não se faz ada na escola”. Nossas feiras científicas, os trabalhos que desenvolvemos, jogos e brincadeiras que criamos simplesmente por estar em contato com os estudantes e que para nós são simples detalhes ou momentos corriqueiros configuram, muitas vezes, em atividades de ensino-aprendizagem ricas e criativas, que demonstram o potencial dos estudantes e da educação na transformação dos sujeitos ali presentes, seja pela valorização do potencial dos estudantes e do professor seja pelo empoderamento dado a eles no processo de produção do conhecimento.

É comum (e real) a desqualificação da fala do professor em espaços acadêmicos. Nossa fala não tem o mesmo peso de doutores docentes em universidades e nossa experiência muitas vezes padece de repercussão. A quantidade de livros, textos e artigos que procuram dizer “Como dar uma boa aula” ou “Como conquistar seu estudante” e coisas do gênero faz parecer que a prática docente pode ser ditada como um livro de auto-ajuda. O menosprezo aos profissionais que escolheram fazer da Educação Básica uma área de atuação se instala pela associação imediata que é feita entre remuneração e qualidade profissional e, sendo a Educação Básica “mau remunerada” torna-se uma percepção comum compreender que, claramente, serão maus profissionais ou, no mínimo, desinteressados e desestimulados.

Ainda que hajam momentos de frustração e revolta e que a depressão seja um problema real que aflige a classe dos professores, a realidade é que escola nenhuma se sustentaria sem ao menos três ou quatro grandes momentos por ano, capazes de produzir um momento catalisador e criativo envolvendo alguns professores e estudantes. E convenhamos, em uma atividade de caráter rotineiro ter três ou quatro atividades de destaque por ano é algo realmente significativo. E talvez o fato de não percebermos nem sermos percebidos por isso colabora em nosso processo de adoecimento mental.

Por fim, nós estamos em um espaço rico, em contato com jovens distintos e com gostos variados, a possibilidade e potencialidades de pesquisa que podem ser realizadas ali vão muito além do que se pode imaginar em outros espaços. Nossa experiência e nossa experimentação são significativas e colocam muito dos limites e possibilidades daquilo que só se pode imaginar nos espaços de reflexão e elaboração montados nas Universidades, Centros de Pesquisa e Institutos.

Nós fazemos ciência em sala de aula e, mais que isso, somos mais de trinta pessoas pensando sobre problemas e criando possibilidades de produção do novo e fazemos isso, muito mais vezes do que percebemos. Precisamos falar para que, ao menos se insistirem em não nos ouvirem, aí o erro será só de quem não nos ouvem.


Já que querem nos dizer "o que devemos fazer" vamos mostrar aquilo que estamos fazendo e cobrar a estrutura, tempo, espaço e apoio para realizarmos muito mais do que o muito que estamos sim realizando a cada dia. 

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