Hoje
vou fazer uma crítica ao trabalho docente no Brasil, talvez algo que
seja fruto de certo pensamento estabelecido de “sacerdócio” ou
mesmo por acharmos tão corriqueiro que não dignamos a notar o que
fazemos. Somos discretos demais.
Explico,
cada dia de trabalho, cada conversa com colega, vejo surgirem,
acontecerem e se realizarem diversas atividades e projetos dentro da
escola. São ideias gestadas pelos profissionais e estudantes que
logo se realizam e se concretizam em aulas, intervenções e
trabalhos. Ideias que surgem ali e, muitas vezes, nem chegam ao
conhecimento de ninguém. Tal cenário leva ao desconhecimento das
atividades feitas dentro da escola e, em muitos casos, ao pensamento
de que “nada mudou”.
Ainda
que devido à estrutura da escola e da forma como funciona algumas
coisas de fato se manterem, as transformações ocorridas dentro da
escola são visíveis para quem está em seu cotidiano e talvez seja
esse o problema, só estão visíveis para quem lá está. A escola,
como grande parte das instituições hoje em dia, sofre de
dificuldade em se fazer ouvir no contexto social e, assim, muito do
que ocorre nela fica nela. Mas isso deve ser revertido.
Recentemente
uma experiência de grande importância na minha trajetória
acadêmica e profissional demonstrou o quanto a nossa prática e
nossas experimentações práticas (afinal, não é de experimentação
que se faz a ciência) produzem resultados admiráveis e potentes,
capazes de gerar comoção e certo apreço na comunidade científica.
A realidade é: O que fazemos, nossas práticas e nossas ações são
produção de conhecimento novo, calcado em substancialidade e que
pode trazer novamente o vigor acadêmico para a escola, aumentando o
número de sujeitos em nossas lutas e quem sabe, fazendo a educação
ser mais transformadora.
Hoje
o texto é um convite, vamos escrever, fotografar, filmar. Mostrar ao
mundo as coisas que apaixonam nossos estudantes, pois cotidianamente
criamos e produzimos materiais apaixonantes que ficam restritos a
nossas salas de aula ou nossas escolas, resultando em pouco impacto
no pensamento sobre a educação e abrindo espaço para os discursos
de que “não se faz ada na escola”. Nossas feiras científicas,
os trabalhos que desenvolvemos, jogos e brincadeiras que criamos
simplesmente por estar em contato com os estudantes e que para nós
são simples detalhes ou momentos corriqueiros configuram, muitas
vezes, em atividades de ensino-aprendizagem ricas e criativas, que
demonstram o potencial dos estudantes e da educação na
transformação dos sujeitos ali presentes, seja pela valorização
do potencial dos estudantes e do professor seja pelo empoderamento
dado a eles no processo de produção do conhecimento.
É
comum (e real) a desqualificação da fala do professor em espaços
acadêmicos. Nossa fala não tem o mesmo peso de doutores docentes em
universidades e nossa experiência muitas vezes padece de
repercussão. A quantidade de livros, textos e artigos que procuram
dizer “Como dar uma boa aula” ou “Como conquistar seu
estudante” e coisas do gênero faz parecer que a prática docente
pode ser ditada como um livro de auto-ajuda. O menosprezo aos
profissionais que escolheram fazer da Educação Básica uma área de
atuação se instala pela associação imediata que é feita entre
remuneração e qualidade profissional e, sendo a Educação Básica
“mau remunerada” torna-se uma percepção comum compreender que,
claramente, serão maus profissionais ou, no mínimo, desinteressados
e desestimulados.
Ainda
que hajam momentos de frustração e revolta e que a depressão seja
um problema real que aflige a classe dos professores, a realidade é
que escola nenhuma se sustentaria sem ao menos três ou quatro
grandes momentos por ano, capazes de produzir um momento catalisador
e criativo envolvendo alguns professores e estudantes. E convenhamos,
em uma atividade de caráter rotineiro ter três ou quatro atividades
de destaque por ano é algo realmente significativo. E talvez o fato
de não percebermos nem sermos percebidos por isso colabora em nosso
processo de adoecimento mental.
Por
fim, nós estamos em um espaço rico, em contato com jovens distintos
e com gostos variados, a possibilidade e potencialidades de pesquisa
que podem ser realizadas ali vão muito além do que se pode imaginar
em outros espaços. Nossa experiência e nossa experimentação são
significativas e colocam muito dos limites e possibilidades daquilo
que só se pode imaginar nos espaços de reflexão e elaboração
montados nas Universidades, Centros de Pesquisa e Institutos.
Nós
fazemos ciência em sala de aula e, mais que isso, somos mais de
trinta pessoas pensando sobre problemas e criando possibilidades de
produção do novo e fazemos isso, muito mais vezes do que
percebemos. Precisamos falar para que, ao menos se insistirem em não
nos ouvirem, aí o erro será só de quem não nos ouvem.
Já que querem nos dizer "o que devemos fazer" vamos mostrar aquilo que estamos fazendo e cobrar a estrutura, tempo, espaço e apoio para realizarmos muito mais do que o muito que estamos sim realizando a cada dia.
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