Algo
me inquieta e é cercado de um silêncio e um descaso incômodo. Já
surgiu em Câmara de Veredores, na Câmara dos Deputados Federais e
no Senado. O tal “assédio intelectual” mal se disfarça como
censura e restrição ao livre pensar na prática educacional. Com
argumentos que beiram a caça as bruxas da Ditadura Militar
brasileira, diversos políticos começam a propor leis falando em
“neutralidade politica” na escola. A questão se coloca ainda
mais grave quando essa lei prevê prisão ao professor que se
posicionar politicamente na escola. O argumento é grave pois ignora
que todo posicionamento é político.
Ao escolher falar em
“neutralidade” isso pressupõe a validação e a aceitação do
status quo,
favorecendo o pensamento hegemônico e naturalizando qualquer análise
crítica.
A
suposição de uma neutralidade é um compromisso com os já
emponderados, afinal, a pressuposição de que se pode ficar neutro
envolve a crença em um equilíbrio de forças. Ficar neutro perante
uma empresa que manda um trem atropelar um ser humano inconsciente é
ser neutro realmente ou é tomar partido da empresa?
Nem
é preciso citar que a ideia de neutralidade científica (que se
importou para a neutralidade na educação) é um conceito do
racionalismo mais arraigado, que preveem, entre outras coisas um
procedimento que afaste o sujeito cognoscente do objeto, isolando-o.
Hoje, seja no domínio das ciências sociais ou mesmo das ciências
exatas, se sabe que o sujeito é atuante e importante na definição
do objeto, afinal, é o sujeito que define o objeto e que o dota de
características. Um exemplo para não falarmos só “cientifiquês”:
- Plutão era um planeta, tratado como tal, logo, sua posição como
objeto era dada como planeta. A partir da descoberta de outros
objetos de mesma características, uma associação de astrônomos
(sujeitos empoderados para a ciência) redefiniu Plutão como um
planeta-anão, mudando suas características de objeto. Em ciências
sociais isso talvez seja ainda mais fácil de ver: Quando se faz um
recorte qualquer, digamos, população negra no Brasil. Haverá
diversos métodos para definir “quem são os negros”,
auto-identificação, identificação pelo entrevistador, dupla
identificação, mas o fato é: A escolha do critério define quem
será negro ou não, mas isso de fato define os negros do Brasil? Se
outra pessoa usar outro critério ela estará errada?
Em
educação, o mesmo ocorre, a concepção sobre escola e educação
do professor é parte de sua prática e, consequentemente, de sua
política. Assim,
toda atuação em sala de aula compreende como o professor se
posiciona frente aos estudantes. Sua postura em relação aos
estudantes, a autonomia dada e as práticas colocadas. Isso é
política. Ao não poder “falar” sobre o que pensa o que
exatamente se pretende? Quando se coloca dados sobre mortalidade no
Rio de Janeiro os dados devem ser só colocados e não se questionar
porque os valores são maiores entre os jovens negros e
pobres?
Quando negamos o posicionamento do professor, considerando que educa-se pelo exemplo, pede-se do estudante também a não escolha de posições. Parece óbvio que o professor não deve ter seu posicionamento como o “verdadeiro” e o “correto” e, pelo próprio contraditório que se faz uma escola (pela pluralidade de sujeitos que ali se encontram) e pela própria forma como se dá o processo de ensino-aprendizagem, alguém que tente impor sua verdade provavelmente conseguirá o efeito contrário. A concepção política se forma a partir da relação com o mundo e, na escola, o que se consegue são as ferramentas para se analisar esse mundo.
Analisamos o mundo a partir da forma como o concebemos e, essa concepção é fruto de nossa posição na estrutura do poder e da forma como a entendemos na sociedade. Não é o mesmo ser no mundo ser homem hétero ou ser uma mulher gay. Da mesma forma não é o mesmo ser no mundo ser professor e estudante nem mesmo ser professor de escolas de periferia ou professor de escolas de elite. As vivências, as experiências, as contradições e os círculos de informação são diferentes e complexos, acreditar que basta ser professor para ser ouvido é não ter entrado nunca dentro de uma sala de aula. A aula e todo processo educativo só se dá a partir da troca com os estudantes e, é nesse processo, que o estudante formula sua própria concepção do mundo. Ou alguém em sã consciência acredita que se professor fosse “tão poderoso” nós já não teríamos uma classe política formada por eles?
Então,
o que se esconde por trás dessa proposta? Se não é
o medo de cooptação, que parece óbvio, algum temor há. Apesar de
todo o descaso, mal trato e mesmo certo desdém pela categoria, é
fato que o respeito social ainda é grande. Além disso, o professor
é o principal agente público em contato com uma vasta porção da
sociedade, assim, sua inserção social é muito grande. Quando se
pretende controlar e restringir o acesso à informação e ao
conhecimento, a restrição da palavra do professor se torna
importante. As recentes greves de professores que se espalharam pelo
Brasil também demonstraram que, mesmo com a atuação criminalizante
da mídia, a sociedade ainda valoriza e dá importância à luta
salarial. Calar essa categoria portanto, é uma estratégia de
afastamento social. É importante ainda ressaltar que a voz do
professor é um contraponto oficial,
isto é, sua fala é revestida de autoridade em questionar decisões
tomadas por políticos que, muitas vezes, pretendem tomar suas
crenças como verdades (e as fazem em forma de lei). E,
mais que isso, permite ao estudante refletir
sobre o assunto, em sala de aula é possível a construção contínua
do conhecimento e não apenas digerir uma fala pasteurizada pronta,
como as mídias oficiais costumam colocar, já ditando um
especialista, na escola, a fala oficial
pede pela voz do estudante.
Fica
fácil imaginar que questões como sexualidade, desigualdades
sociais, corrupção, tráfico de drogas e redução da maioridade
penal facilmente entram no pantanoso terreno das “posições
políticas”, assuntos extremamente importantes, que mexem com a
vida da população, mas que passariam a não poder ser tratados em
sala de aula, um ambiente onde o estudante pode elaborar seu
pensamento e chegar a conclusões baseado na relação entre o
conhecimento científico e a sua experiência.
Além
disso, é importante pensar que grupos reacionários inclusive
criticam propostas científicas como ideologias. Assim, aquecimento
global, evolução das espécies e até mesmo a igualdade étnica
deixam de ser passíveis de ser ensinadas na escola. Faz sentido?
É
importante se colocar que num contexto em que se tenta argumentar que
a Evolução é “só uma teoria”, essa política pode servir para
incriminar até
mesmo o professor que defender um argumento científico
se porventura ele tiver a sanidade de argumentar em prol da validade
do raciocínio científico (que, em teoria, seria o papel da escola).
Como então ensinar se a própria validade do pensamento pode ser
sujeita à prisão? Será que, ainda hoje, querem que aqueles que
levam a reflexão tomem cicuta tal como Sócrates?
Gabriel Balardino
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