terça-feira, 11 de agosto de 2015

Sobre os negadores da ciência e a escola

 Já tem algum tempo que venho me preocupando com os grupos que contestam avanços científicos. O último que me chamou a atenção foi um grupo que defende que a Terra seria plana e que todo avanço científico seria para afirmar isso como verdade e que tal empreendimento de afirmar que a Terra é redonda é só para enganar as pessoas em prol de “algo maior”.

Os argumentos, todos dotados de pseudo-ciência e com erros crassos (como ignorar toda a ciência da Cartografia, a necessidade de uso de datum para a correção de medidas em imagens e mesmo conceitos simples de física, como inércia, atrito e, acredite, gravidade, seduzem algumas pessoas que, de fato, aceitam que “talvez isso tenha algum sentido”.

Outros exemplos, como o aquecimento global, que hoje inclusive já mobiliza um debate televisivo como se houvesse um “debate científico”, quando na realidade o grupo que critica o aquecimento global é bem restrito, se apoia em pesquisas antigas e francamente apoiadas por empresas de petróleo e combustível. O derretimento das calotas e os inúmeros dados que mostram o aquecimento, por outro lado, são tratados como “distorções” e “leviandades”.

Existe ainda o famoso e cada vez mais comum exemplo, o criacionismo que com um apoio fortemente calcado nas religiões cristãs, cresce e tenta se impor como conhecimento “científico”. Entre suas argumentações está o fato de que a humanidade tem apenas seis mil anos e de que a Terra foi criada em sete dias, sendo os dados da ciência falsos ou errôneos, especialmente a Evolução das espécies que é apresentada de forma caricata e incompleta pelos defensores do criacionismo.

Mas o que todos esses casos têm em comum? Em primeiro lugar, a negação do conhecimento científico como falso e, mais grave, a afirmação de que os cientistas mentem deliberadamente. Em segundo lugar se apoiam em explicações que não se sustentam em pesquisas nem em experimentos repetíveis. Por fim, apoiam-se em explicações muito exclusivas e específicas em cada caso para formar a base de sua argumentação sem a reflexão dos porquês envolvidos.

Esses aspectos preocupam quando falamos em educação. Penso que a educação deve ter como uma de suas preocupações o avanço do método e do pensamento científico. Tais falácias e pseudo-ciências não crescem pelo acaso, elas se criam no vácuo deixado pelo pouco conhecimento do funcionamento da ciência, que leva à fantasia de que o conhecimento científico é efetuado por “cientistas loucos” que maquinam em congressos forma de enganar as pessoas. Será que realmente estamos ensinando Ciência na escola? E quando digo ciência, falo das metodologias, técnicas e debates epistemológicos que se colocam no desenvolvimento de uma teoria e na formulação das diferentes propostas.

Quando a ciência parece um mistério, abre margens para a imaginação e a criatividade agirem e transformarem aqueles que vociferam frases enigmáticas como conspiradores, capazes de manipular a realidade ao seu bel-prazer (lembrem-se, já queimamos curandeiras simplesmente porque não entendíamos o que elas estavam fazendo). Transformar a ciência em um conhecimento acessível envolve ensinar como ela funciona e isso pode ser revolucionário não só para a escola, mas para a sociedade em geral.

Imagine equipes de botânica, agroecologia, pesquisas sociais, observação espacial, análise de fluxo de veículos que sejam compostas por 30, 40 observadores em cada bairro, todas essas acompanhadas por um cientista qualificado? Que tipo de análises poderiam ser feitas? A capacidade de chegar na escala local pela escola abriria a possibilidade de relacionar de fato as grandes teorias com o cotidiano, assim como gerar conhecimento significante para os estudantes.

Nossa preocupação em gerar um conhecimento “já pronto” por vezes ignora os potenciais de um conhecimento a ser descoberto, nada como “descobrir” a força centrípeta em jogando um ioiô ou mesmo dando um chute de trivela, ou então perceber que ao olhar pro céu podemos também fazer previsões e que, olhar de satélite pode ser entendido como “conseguir olhar mais pedaços do céu ao mesmo tempo”. Ao mesmo tempo, um certo afastamento da universidade e da sociedade em geral há um grande abismo que faz com que a divulgação científica seja precariamente desenvolvida, surgindo esporadicamente um ou outro divulgador de mais relevância de tempos em tempos.

Ao mesmo tempo, acostumamo-nos com não “buscar” o conhecimento, mas a esperar que eles cheguem pronto e, nesse ponto, a escola é sim uma grande culpada. Ao dividirmos a escola entre “professadores” e seres sem luz, acostumamos os sujeitos a aceitarem a voz de qualquer pessoa que seja “emponderada”. E aí entra o mais perigoso, basta um título (ou as vezes até mesmo uma boa retórica) para que a fala seja aceita como “verdadeira”, afinal, tem alguém professando aquilo.

Precisa-se, portanto, modificar-se a forma de “dar aula”, é uma necessidade urgente para que a aula não se confunda com catequismo, já que uma fala mecanizada, dotada de “poder de verdade” e que ainda seja “ilustrada com vídeos e figuras” será muito mais poderosa numa mente que não compreende como funciona a ciência.

Nesse sentido, o ensino de Método Científico e também da Filosofia se torna uma necessidade para ontem, já que é essa a fonte que nos permitirá pensar o pensamento capaz de desmistificar a ciência e compreender suas bases, o estudo da lógica é extremamente importante nesse sentido, assim como a observação. Não se ensina a pensar logicamente para transmitir conhecimento, usa-se o pensamento lógico para compreender o conhecimento. Enquanto não entendermos isso, continuaremos a produzir escolas que auxiliam o surgimento e o fortalecimento dos negadores da ciência.




Mais informações nesse vídeo sobre o tema:
https://www.youtube.com/watch?v=jlEVQOFUAxo

Sobre o aquecimento global:

Sobre criacionismo recomendo o Canal do Pirulla:
https://www.youtube.com/user/Pirulla25

Para quem quiser material de divulgação científica para sala de aula:
Quer que desenhe:
https://www.youtube.com/channel/UCYP-0Y1i-AXhT1aj10t5Qgg


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