Não
é assunto recente, nem é de hoje que se fala que as pessoas têm
sido tratadas como objetos. Temos que admitir, nossa sociedade é
especialista nisso. Nos noticiários, no entretenimento, na
publicidade e até mesmo nos relacionamentos, nos transformamos em
“coisas” com uma qualidade que talvez nunca tenha sido vista.
E
como coisas, podemos ser contados, manipulados e movidos ao
bel-prazer. Mesmo que a gente mesmo não sinta prazer nenhum nisso. O
prazer não foi feito para coisas, mas para pessoas e, nesse processo
de desumanização, nós somos apenas dados. E o pior, dados para
quem pagar melhor.
Tudo
isso começou de forma discreta, alguns talvez nem tenham notado. Foi
a estatística aquela que começou tudo, desde que passou a fazer
sentido a informação de que os casais brasileiros tinham em média
2,39 filhos e passaram a ter 1,77 filhos. Perdemos a dimensão que
não existe 0,39 pessoa e nem mesmo 0,77. Viramos números, e o pior,
nem mesmo números inteiros, mas uma dízima que provavelmente
transformou alguém em 40% dela mesmo, menos pior que agora
transforma em 77% dela.
Como
não se restringiria a estatística, a transformação em números
envolveu logicamente, aquilo que o número mais significa na nossa
sociedade o dinheiro. Pronto, aí acaba de vez a liberdade, quando
viramos dinheiro, deixamos de ser. Seja no transporte: “transporta
1 milhão de pessoas por dia”, olha, falaram pessoas, mas ninguém
pensa que os números escritos no ônibus de “número máximo de
passageiros” não passa de um deboche enquanto você
involuntariamente cheira o sovaco de alguém enquanto seu único pé
no chão é esmagado pelo sapato de algum outro infeliz. E nesse
amasso todo, você não sabe se é o 900 mil ou o 700 mil, a única
coisa que sabe é que parece mais uma sardinha enlatada e ainda falta
muito para chegar em casa. Mas, você é um número.
E
aí, você vota, em um número que é eleito se tiver mais números
votando nele do que em outra pessoa. Até aí nada demais, precisa-se
arrumar uma forma de organizar as coisas e contar é uma delas,
alguns dizem até que é relaxante. Mas eis que você também vira um
número em lugares em que seria mais legal ser, sei lá, gente? Que
lugares são esses? Hospitais, Escolas e muitos outros. Não seria
legal se nesses lugares não tratassem as pessoas como índices,
metas e velocidade? Imagina que interessante seria poder ser
consultado sem uma meta de 4 pacientes por hora? Ou então sem uma
sala de aula que tenha que ter um estudante por metro quadrado? Pode
não parecer... Mas quando se vira número, se perde um pouco dos
direitos.
E
está nos nossos relacionamentos, o vizinho é o número do
apartamento dele na reunião de condomínio. Assim, tem o cara do
1202 e a velha do 203. Com as redes sociais e sua contagem de amigos
isso piorou e faz com que as pessoas levem ao pé da letra a poesia
de Roberto Carlos e queiram “um milhão de amigos”. Parece que
esquecem do que a Raposa disse ao Pequeno Príncipe sobre “ser
eternamente responsável por aquilo que cativas”, sei lá, me
parece uma responsabilidade muito grande ter um milhão de amigos...
Mas como são números, ninguém vê muito problema e colecionam
“likes” sem saber direito o que é curtir algo. Mas até aí, sem
problema, cada um coleciona aquilo que lhe convém. A droga é que
nessa brincadeira a gente vira número pro tal Mark e ele vende a
gente! Claro, somos números, é só botar um cifrão na frente e
viramos grana, como não pensar nisso? E a gente bobão achando que
está abafando porque conseguimos fazer alguns outros números
apertarem um botão (que foi feito com números, por outros números).
E
aí afeta tudo, viramos “de maior” e “de menor” porque,
afinal, o que importa são os números. E ao ser mandado embora,
afeta aquele 0,00001% do desemprego que é insignificante para o
país, mas não para os pais. E a discussão vira, tornar o “de
menor” em um “de maior” mais cedo, mas onde estão as pessoas?
Quem as engoliu na estatística.
Não
entendam mal. Eu adoro a estatística, ela é útil, facilita muito
as contas... Mas ela é isso, para contas, não para relacionamentos,
é preciso não deixar que a nossa conversão em números nos tire a
empatia pelo outro. Pelo encontro, por olhar um moleque de dezesseis
anos e lembrar que já teve aquela idade, de entender que a dor do
outro não é “só mais uma e tem muitos sofrendo também” e que,
só talvez, aquele seu vizinho do 1202 tenha um nome e, quem sabe,
até goste das mesmas coisas que você. Quando se trata tudo por
números, a gente pode acabar virando aquela parte que some quando se
arredonda. Convenhamos, ninguém quer ser fração.
"A gente quer inteiro e não pela metade". Titãs.
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